‘Essa cidade me atravessa’, canta Maria Bethânia em um de seus mais belos trabalhos. A experiência com a cidade pode ser descrita pela impregnação e atravessamento em suas paisagens. Imagens e impressões que nos atravessam, marcando indelevelmente nosso tecido vital. Para mim, o ato de percorrer por entre a cidade se confunde com o ato de ser atravessado pela cidade.
Ir de encontro às possíveis paisagens que a cidade nos oferece. Perceber que enquanto as percorro também sou percorrido por elas. Permitir que as paisagens nos percorram é o convite dessa escrita. Impregnar-se de paisagens até o último fio de cabelo. Sou também uma paisagem. Sirvo de cenário e caminho para todos os fluxos e desejos que me percorrem. A vida me percorre.
A narrativa também é uma paisagem a ser percorrida, pois ela sempre quer habitar algum lugar, mesmo que seja os mais recônditos cantos do pensamento. Descrever uma paisagem é habitá-la. Penso a paisagem também como uma linguagem, às vezes mais rebuscada, as vezes mais coloquial. Percorrer palavras, sem tropeçar em vírgulas e sem chegar ao ponto final com a idéia de que o caminho acabou.
A paisagem expande o meu corpo pois oferece novas informações sobre possibilidades de trajetos e tais trajetos me trazem novas possibilidades de vida. Construo arquiteturas mentais a partir dos meus trajetos. Agrego ao meu corpo o espaço que anteriormente habitei. Guardo em meu DNA informação preciosa sobre percursos e possibilidades.
Sempre em rumo do horizonte longínquo. Talvez por isso a sensação de que meu corpo expande pelo simples fato de realizar uma caminhada descompromissada. Sem início nem chegada, apenas o ato de caminhar. Caminhar solitário ou acompanhado. Não há nada mais sublime que andar sem rumo. Prefiro o caminhar do bêbado, caminhar na corda bamba, me perder por entre os passos. Descontrair enquanto caminho até virou um hábito.
A paisagem também se articula com o não dito, o que existe anterior à linguagem. A paisagem guarda muitos mistérios. Até mesmo as mais simples, sem tantos atrativos visuais. Ela sempre vem de todas as direções e nos atingem a todos os momentos . Afinal de contas não seria a vida apenas uma paisagem ansiando por habitação? O que mais esperar além de percurso?
Acredito que para percorrê-las precisamos nos abdicar dos nossos apegos. O percurso exige o abandono, a sensação desconfortante de estar perdido. Durante esse percurso também aprendi a me desconstruir. É como desenrolar um carretel. Às vezes embola, mas é a mais clara representação do meu cotidiano. Digo isso pois sou construído de imagens, ou melhor, de paisagens. Dessas bem arrebatadoras e de outras, não tão importantes.
A paisagem também sempre exterioriza subjetividades que nos moldam e são moldadas por nós. Dessa forma, percorrer paisagens e agregá-las ao meu corpo foi uma forma que encontrei para expandir o mesmo, já tão moldado pelo cotidiano e valores sociais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário